quarta-feira, 17 de julho de 2013

Monaco e PSG criam abismo que não existe nem na Espanha e ameaçam 'democracia francesa'


PSG e Monaco são responsáveis por 85% dos 246,4 milhões de euros já gastos nesta janela na França
PSG e Monaco são responsáveis por 85% dos 246,4 milhões de euros já gastos nesta janela na França
A mais democrática entre as grandes ligas no século 21 está em vias de extinção. Palco para sete times campeões desde 2001, o Campeonato Francês pode ver sua ‘alternância de poder' ir por água abaixo à medida que Paris Saint-Germain e Monaco constroem um império que não existe em nenhum outro lugar na Europa.

Entre investimentos sem taxação de impostos e milhões vindos do Oriente Médio, os dois clubes mais ricos da França já são responsáveis por 85% dos gastos totais dos times da Ligue 1 nesta janela de transferências, uma disparidade que não se repete nem mesmo no Campeonato Espanhol, de Barcelona e Real Madrid.

O Monaco tem a seu lado o fato de estar localizado em um paraíso fiscal. Atualmente, enquanto todos os clubes da França têm que pagar 49% em impostos sobre ganhos superiores a 500 mil euros por ano, os monegascos ficam livres, sendo submetidos a essa taxa apenas nos salários dos atletas franceses - hoje, menos da metade do elenco.

Aproveitando-se da condição fiscal privilegiada, o Monaco, de propriedade do milionário russo Dmitri Rybolovlev desde o fim de 2011, já torrou 144 milhões de euros para se reforçar na temporada, com nomes como os dos colombianos Falcao García (€ 60 milhões) e James Rodriguez (€ 45 mi) e o do português João Moutinho (€ 25 mi).

Na sequência dos gastos, vem o PSG, comprado pelo sheik Nasser Al-Khelaifi e sua Qatar Sports Investments (QSI) também em 2011. O clube da capital é responsável por 64 milhões de euros dos 246,4 já investidos nessa janela de transferências na França. Tudo graças à fortuna despejada para contratar o uruguaio Edinson Cavani.

Nasser Al-Khelaifi e Dmitri Rybolovlev: os milionários por trás de PSG e Monaco
Al-Khelaifi e Rybolovlev: milionários por trás de PSG e Monaco
A 23 dias do início de mais uma temporada do Campeonato Francês, enquanto Monaco e PSG já gastaram 208 milhões de euros com reforços, todos os outros 18 clubes da Ligue 1 somaram para € 38,4 mi, sendo o Olympique de Marselha o mais próximo dos milionários, com € 14 mi investidos - um décimo das cifras monegascas, por exemplo.

Na Espanha, conhecida por ter seu Liga dominada por Real Madrid e Barcelona, o abismo financeiro nesta janela de transferências é bem inferior. Dos 228,6 milhões de euros já gastos com reforços, os gigantes do país são responsáveis por "apenas" 62%: os merengues com € 72,5 milhões, e os catalães com € 70 mi.

"Salvaguardando os interesses do futebol francês"

Para tentar conter a construção de uma hegemonia de apenas dois clubes, a Liga Profissional Francesa (LFP) já se posicionou contra as condições fiscais exploradas pelo Monaco. O time do principado tem até junho de 2014 para se transferir para o território francês ou será excluído da Ligue 1, segundo a entidade.

Sem sequer cogitar a possibilidade de mudar seu endereço, o Monaco tem como alternativa pagar uma multa de 200 milhões de euros nos próximos cinco, como forma de compensação, já que, em média, cinco euros gastos por franceses equivalem a € 2 gastos por monegascos. A hipótese, contudo, também não agrada Dmitri Rybolovlev.

Para o PSG, os impostos que ajudam o Monaco é que podem atrapalhar. Para conter a crise financeira, a França anunciou que irá taxar em 75% salários superiores a 1 milhão de euros, atingindo em cheios os cofres do clube. No entanto, a medida também promete atrapalhar as demais equipes francesas - exceção feita, claro, ao Monaco.

Em 2012, o Montpellier estragou a 'festa dos milhões'
Em 2012, o Montpellier estragou a 'festa dos milhões'
Enquanto não encontra uma maneira efetiva de reverter o abismo criado por Monaco e PSG, o Campeonato Francês deposita suas esperanças no futebol jogado dentro de campo. Em 2011/12, por exemplo, o modesto Montpellier desbancou os milhões do time de Paris e conquistou seu primeiro título nacional em mais de 90 anos de história. Na última temporada, porém, o dinheiro falou mais alto com a festa de Ibrahimovic & Cia.

Democracia no futebol europeu: veja os campeões das grandes ligas no século 21

FRANÇA - 7 campeões: PSG, Montpellier, Lille, Olympique, Bourdeaux, Lyon e Nantes
ALEMANHA - 5 campeões: Bayern, Dortmund, Wolfsburg, Stuttgart e Werder Bremen
INGLATERRA - 4 campeões: Manchester United, Manchester City, Chelsea e Arsenal
ITÁLIA - 4 campeões: Juventus, Milan, Internazionale e Roma
ESPANHA - 3 campeões: Barcelona, Real Madrid e Valencia